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O MCAS do Boeing 737 Max 8 e a possível relação com quedas na Indonésia e Etiópia

Dois aviões Boeing 737 Max 8 sofreram acidentes fatais sendo operados pela Lion Air, na Indonésia, e Ethiopian Airlines, da Etiópia, matando ao todo 346 pessoas

As semelhanças entre os acidentes da Lion Air, na Indonésia, e da Ethiopian Airlines, da Etiópia, chamaram a atenção para o sistema de estabilização utilizado pelo novo avião Boeing 737 Max 8. 

Aviões 737 Max 8 da Lion Air e da Ethiopian Airlines que caíram (Fotos: Reprodução)

O MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System) é um sistema de segurança automático que realiza correções em caso de violação de determinados parâmetros em manobras de mudança de altitude e direção. O avião da Lion Air, que mergulhou no mar em outubro matando 189 pessoas, e o aparelho da Ethiopian Airlines, que caiu no domingo deixando 157 mortos, operavam com o MCAS.  

Os dois aparelhos fizeram subidas e descidas erráticas, a velocidades flutuantes, antes de cair minutos após a decolagem.  Apesar das semelhanças entre os dois acidentes, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) avalia que ainda é cedo para se tirar conclusões.  

O MCAS foi introduzido pela Boeing no 737 Max 8 devido às turbinas do avião, mais pesadas e eficientes no uso do combustível, que mudaram as características aerodinâmicas da aeronave e podem levantar seu nariz em certas condições de voo manual.  

"É um sistema que otimiza o perfil de voo e ajuda os pilotos a manter a aeronave na posição" apropriada, resumiu o especialista em aeronáutica da AirInsight Michel Merluzeau. Isto é possível graças aos estabilizadores horizontais na cauda do avião, que são controlados pelo computador de controle de voo da aeronave.  

Segundo a Boeing, o MCAS não controla o avião durante o voo normal, mas "melhora o comportamento do avião" durante situações anormais. Tais situações ocorrem durante giros bruscos ou logo após a decolagem, quando o avião está ganhando altitude com os flaps abertos a baixa velocidade.  Figura mostra a utilização do MCAS no Boeing 737 Max 8 (Figura: Divulgação)

De acordo com o registro de dados, os pilotos do voo 610 da Lion Air lutaram para controlar o avião, enquanto o sistema MCAS pressionava repetidamente o nariz do aparelho para baixo durante a decolagem.  Os pilotos do avião da Ethiopian Airlines informaram uma dificuldade similar antes de o aparelho cair, também minutos após a decolagem.

Atualização do Software

Um relatório preliminar sobre o acidente do voo 610 culpou em parte um sensor de ângulo de ataque defeituoso que ativou o MCAS e forçou automaticamente o nariz do avião para baixo.

Os pilotos que voaram no mesmo avião da Lion Air, um dia antes, haviam conseguido anular o sistema de controle automatizado.  

A Boeing recebeu algumas críticas após o acidente da Lion Air por supostamente não informar adequadamente os pilotos dos modelos 737 sobre o funcionamento do MCAS ou proporcionar capacitação sobre o sistema. Após o acidente da Lion Air, a Boeing emitiu um boletim para as empresas que operam o 737 Max 8 ensinando aos pilotos como anular o sistema MCAS. 

A Boeing divulgou um comunicado nesta segunda-feira avaliando que é muito cedo para determinar a causa do acidente com o aparelho da Ethiopian Airlines.  

O grupo informou ainda estar trabalhando nas atualizações do software para o sistema MCAS na frota de 737 Max, mas destacou que já existem procedimentos para "administrar de maneira segura a improvável situação de dados equivocados procedentes do sensor de ângulo de ataque (AOA)".  

"O piloto sempre pode anular o controle (do MCAS) utilizando o ajuste elétrico ou o ajuste manual", afirmou o fabricante de aviões. 

Desde a década de 1970 - quando o DC-10 da McDonnell Douglas sofreu sucessivos acidentes fatais - nenhum outro modelo novo esteve envolvido em dois acidentes fatais em um período tão breve.

Gol cancela voos no 737 Max 8

A companhia aérea Gol, única no Brasil que opera com os aviões Boeing 737 Max 8, operando em rotas para os Estados Unidos, América do Sul e Caribe, preferencialmente, decidiu suspender temporariamente, por "liberalidade", o uso do modelo. 

Gol possui sete Boeings 737 Max 8 e suspendeu as suas atividades com os aviões (Foto: Reprodução)

A suspensão, informada previamente à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), começou a valer na última segunda-feira (11/03). A empresa afirma que, desde junho de 2018, já realizou 2.933 voos com o Boeing 737 Max 8, "totalizando mais de 12.700 horas, com total segurança e eficiência".

A companhia também suspendeu a venda de voos que utilizariam o modelo - eles sairiam de Brasília e Fortaleza e iriam até Miami e Orlando.

A Gol informou que os clientes com viagens previstas nas aeronaves 737 Max 8 serão comunicados e reacomodados em voos da empresa ou de outras companhias aéreas.

"A central também permanece à disposição pelo telefone 0800 704 0465. A empresa continuará operando os destinos internacionais de longo curso com os aviões Boeing 737 NG, sem previsão de cancelamento na malha", afirmou a companhia aérea.

Suspensão pelo mundo

Diversos países também adotaram restrições ao do Boeing 737 MAX 8 após acidente na Etiópia.

As autoridades de aviação da China e da Indonésia ordenaram que as companhias aéreas suspendessem sua utilização. A Ethiopian Airlines, Cayman Airways (das Ilhas Cayman), Comair (África do Sul) e Royal Air Maroc (Marrocos) anunciaram que também interromperam a utilização desse modelo após o acidente. A Associação de Pilotos de Linhas Aéreas da Argentina (APLA) decidiu nesta segunda orientar seus filiados a não voarem em aviões 737 MAX da Boeing.

Southwest Airlines, empresa com maior número de 737 Max 8, mantém operação com os aviões (Foto: Reprodução)

Segundo a Boeing, 350 aeronaves do modelo são operadas por cerca de 50 empresas no mundo.

Segundo dados compilados do site planespotters.net, que cataloga frotas de aviões no mundo, existem ao menos 47 companhias que têm o 737 MAX da Boeing entre seus aviões. Delas, pelo menos 19 suspenderam seu uso.

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