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Conhecer o mundo pode ser bom. Mas você já experimentou conhecer o Piauí?

As cachoeiras de Batalha são dignas de estar entre os cenários mais encantadores do mundo

A Expedição Nosso Piauí foi até Batalha. Leia e se encante com as belezas naturais de lá. (Foto: Thaís Brito/Portal O Estado)

O convite veio há um bom tempo atrás, logo após a primeira matéria da Expedição Nosso Piauí. Recebi o link da matéria no WhatsApp com um elogio sobre o texto e, em seguida, a proposta: “Vamos fazer sobre as cachoeiras de Batalha?”

Quem estava fazendo o convite era meu amigo Venâncio, vereador eleito de Teresina e, atualmente, secretário da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo na capital. Descobri somente depois, mas a ligação de Venâncio com a cidade do Norte do Piauí começou em 2010, quando ele, recém-formado em Direito, escolheu o município para começar a atuar na profissão – conto isso mais para frente.

A VIAGEM

A programação caiu na Semana Santa. Quinta ou sexta, era o combinado. Eu e Venâncio nos encontramos, por acaso, uma semana antes. “Tudo certo?”, me perguntou. Respondi que sim e fechamos a viagem para sexta, dia 19 de abril.

Mais uma vez minha companheira de pauta faria parte da expedição. Combinei com Thaís que sairíamos às 7h. “Chegaremos 9h. Vamos logo em uma cachoeira, almoçamos e depois vamos nas outras”. Estava feito o planejamento.

A noite foi curta. Ajeitei minhas coisas antes de dormir, bem tarde. Acordei cedo, ainda com sono, mas pelo horário, já sabia que dificilmente conseguiríamos sair pontualmente no horário. Thaís foi ao meu encontro e, às 7h30, saímos. Um imprevisto mudaria nossa programação logo de início: não contávamos com tantos buracos na estrada. A velocidade que a gente se deslocava era baixa. Era arriscado acelerar.

No caminho, Thaís falava de não conhecer nenhuma daquelas cidades que passávamos. “Na verdade conheço pouco lugares daqui fora o litoral. É tudo novo para mim. Você já conhece tudo, não vale”. Faz um pequeno drama e finge um princípio de zanga – brincadeira saudável.

Na metade do caminho, quando volta sinal de rede para o celular, Thaís me avisa que chegou uma mensagem do Venâncio. Pela programação, já deveríamos estar em Barras, cidade vizinha a Batalha, mas com os imprevistos, ainda demoraríamos mais uma hora além do previsto. Era isso que perguntava na mensagem.

Um pouco atrasados, mas finalmente chegamos. O ponto de encontro foi a casa do sogro de Venâncio, o senhor Paulo Ronaldo. Figura mais que simpática. Semblante sereno, fala mansa e bem humorada. Características que lhe marcam.

Somos apresentados a todos. Conversamos por alguns minutos e então decidimos ir na primeira cachoeira: Cachoeira do Urubu. Sempre pensei que o acesso dela era apenas por Esperantina, outra cidade vizinha a Batalha. E digo isso por que tenho família por lá. Aliás, foi a primeira coisa que minha mãe falou quando saí de casa. “Não banhe na Cachoeira do Urubu não”. Assim como eu, ela conhece muitas histórias e lendas de pessoas que sumiram nas águas de lá.

Nova estrada até a Cachoeira do Urubu deve diminuir o trajeto de quem vai da capital. (Foto: Vitor Sousa/Portal O Estado)

No caminho até lá, Venâncio conta que pela nova estrada que está sendo feita em Batalha, o caminho até a cachoeira deve diminuir em pelo menos 50km. Dentro do carro também estão Manga Rosa e De Assis. Dois amigo de Venâncio na cidade.

Lembra que falei sobre Venânio e a cidade? Então, De Assis era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Foi uma das primeiras amizades que ele fez por lá. Mesmo Larissa, sua esposa, sendo de lá, os dois só se conheceram tempos depois, em uma festa em Teresina.

O clima era descontraído. Perto da cachoeira, já começamos a escutar o barulho da queda d’água. De um lado é Batalha, do outro, Esperantina. As águas separam as duas cidade. A travessia de um lado para o outro é uma parte com estrutura de ferro e piso de madeira.

Confesso que indo em direção a passarela fico com um frio na barriga. Lembro das histórias que ouvi. O visual é encantador, mas os freixos da ponte, com algumas tábuas quebradas, já não me deixam tão animado. Pergunto Thaís se está tudo tranquilo. “É lindo”, é tudo que me responde. Depois completa que se encantou com a paisagem e não conseguiu dimensionar se havia algum risco.

Passarela sobre a Cachoeira do Urubu, que leva turista de Batalha a Esperantina. (Foto: Vitor Sousa/Portal O Estado)

Aquilo me fez lembrar da infância. E o quanto desvalorizamos o que é nosso. Depois que crescemos, nossa cabeça pensa algumas vezes em conhecer o mundo, mas poucas em voltar nossos olhos para o que é daqui. Pensando nisso, paro para fazer uma foto e lembro o quanto o Piauí é maravilhoso.

O barulho da água é ainda mais intenso no meio da passarela. Gotículas de água, com o vento, causam uma sensação indescritível. Não havia mais medo. Era apenas o deslumbre que comandava a situação. Eu virei criança novamente. Tudo que eu conseguia pensar era o quanto estava feliz por viver aquilo de novo.

Eu (Vitor Sousa) à esquerda e Venâncio Cardoso à direita, na Cacheira do Urubu. (Foto: Thaís Brito/Portal O Estado)

Do lado de lá, sentamos para comer um peixe. Lembro que conheço a cachoeira, mas que não conheço a origem desse nome. Começa a saga para descobrir. De pronto, duas versões. Uma contada por Venâncio, de que o nome é dado pela quantidade de peixe. “Quando a água baixa, num certo período do ano, muitos peixes morrem e o cheiro atrai os urubus. Por isso o nome”. A outra versão vem de De Assis. “A lenda diz que um vaqueiro tava correndo atrás de um boi aqui por essas terras, muito tempo atrás, e não conhecia a cachoeira. Caiu nela e foi encontrado por causa dos urubus que estavam voando sobre ele”.

Como haviam duas histórias, decidimos perguntar outras pessoas. Um senhor de idade avançada, porém muito esperto, foi o primeiro - me perdoem, mas não lembro seu nome agora. Ele diz que já ouviu algumas histórias e que não sabe ao certo, então chama o “Cabelo”, outro senhor que aparenta ser um pouco mais novo que ele.

Quedas d'água impressionam por curvas e força que têm. (Foto: Vitor Sousa/Portal O estado)

Cabelo conta uma história que acaba por ser uma junção das outras duas. “Dizem que é porque um vaqueiro que morava por essas bandas sempre vinha pescar por aqui. Sempre teve muito peixe. Um dia ele veio pescar e não voltou. Depois acharam ele morto por causa dos urubus que estavam rodeando aqui a cachoeira, próximo de onde ele tava. Então batizaram de Cachoeira do Urubu”. Todos entram em um consenso.

Conhecemos as histórias, comemos e é hora de voltar para o lado de Batalha. O carro havia ficado por lá. “De tarde vamos na Cachoeirinha, na do Xixá e na Cachoeira dos Almeidas”, diz Venâncio refazendo a programação.

De novo na casa do Sr. Paulo Ronaldo e da Dona Liduina, somos recebidos com um almoço farto. Descansamos mais do que o esperado, perdemos o horário e a programação sofre uma nova alteração. A ida as outras cachoeiras fica para a manhã do dia seguinte.

Nos encontramos a noite. Boas conversas e um clima mais do que agradável comandam a recepção. Eu e Thaís nos sentimos muito a vontade. “Dá pra perceber que gostam de receber as pessoas”, ela comenta comigo. A sensação de paz é explicada pelo Sr. Paulo Ronaldo. “Há anos não tem um assassinato na cidade. Aqui é muito calmo”.

Já estava ficando tarde. Resolvemos ir deitar. O combinado era ir às 7:30, nas outras cachoeiras.

Para ir até a Cachoeira do Xixá é preciso seguir uma trilha. (Foto: Vitor Sousa/Portal O Estado)

Sem muito que contar nesse intervalo, peço permissão para apresentar a vocês a Cachoeira do Xixá, um dos mais belos quadros que a natureza pintou, ao meu ver. É preciso descer uma trilha à pé para chegar até lá. Nas árvores, placas pedem o cuidado com o lugar, principalmente em relação a não jogar lixo. É digno. Um lugar como aquele merece mesmo o zelo.

Despreparado, não levei roupa para banhar, mas não foi o suficiente para me impedir. A água cristalina e em temperatura mais que agradável não me deixou resistir. Venâncio me sugere ir até a queda d’água. “Vai pela lateral, tem menos buracos”.

Cachoeira do Xixá é digna de cenário de filme. (Foto: Thaís Brito/Portal O estado)

A cada passo que eu dava, meu coração acelerava. Me sentia em cena de um filme. Nunca tinha banhado num lugar como aquele. O som que a água produzia atrás da sua cortina se fazia tão belo quanto canções. “Obrigado, meu Deus”. É tudo que consigo pensar.

Permanecemos mais um pouco por lá e então temos que ir. “Só a visão já valeu a pena”, balanço a cabeça e concordo com minha doce Thaís. É hora de voltar pra casa e me desculpem não conseguir passar sem um bom clichê, mas na mala trouxemos muito mais amor por essa terrinha aqui.


Até breve.

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