Os clubes da Copa do Nordeste travam uma disputa por dinheiro nos bastidores da competição. As equipes maiores, que ficaram com a principal fatia das verbas dadas pela organização pela participação no torneio, reclamavam que o valor recebido é baixo. O Bahia, tricampeão (2017, 2002 e 2001) e finalista da última edição, ameaçava não participar neste ano. 

Por sua vez, os clubes que vão receber as menores quantias se queixavam de injustiça na divisão dos recursos. Em conversas com a reportagem, dirigentes disseram considerar a possibilidade de colocar em campo seus times sub-20.  

“O valor é muito baixo. O que recebemos é cerca de 3% do nosso orçamento anual. O torneio precisa encontrar formas de gerar mais receita”, disse o presidente do Vitória, Ricardo David, que, assim como Bahia, Ceará e Santa Cruz, irá embolsar R$ 1,9 milhão para jogar o torneio de 2019. Esse é o grupo que vai receber a maior quantia.  

O dinheiro arrecadado pela Liga do Nordeste (responsável pela área comercial do campeonato) foi dividido por quatro grupos com quatro clubes cada um. O grupo 4, composto por CSA, Sergipe, Altos e Moto Club, é o que receberá o menor valor. Cada clube ficará com R$ 510 mil.  

"Nossa proposta é que o dinheiro fosse distribuído igualmente. Cada um dos 16 times da Copa ficaria com R$ 1,26 milhão. Seria mais justo e ajudaria o desenvolvimento do futebol na região. Foi usado o ranking da CBF de 2017 para definir os grupos e os recursos, o que é injusto. Se a competição é de 2019, o certo seria o ranking de 2018”, avalia o presidente licenciado do CSA, Rafael Tenório. 

O orçamento para o torneio em 2019 está em torno de R$ 30 milhões e engloba a arrecadação de recursos com a CBF, patrocinadores do torneio e os direitos de TV adquiridos pelo SBT. Desses, cerca de R$ 20 milhões serão distribuídos aos clubes apenas na fase de grupos sem contar premiações para os que passarem de fases até a decisão.  

O clube alagoano é o que lidera as reclamações dos que vão embolsar as menores cotas. O raciocínio é que no próximo ano a Copa do Nordeste poderá ser uma competição muito deficitária para o CSA, que está no G4 da Série B e se tornou um dos favoritos para subir à elite do futebol nacional.

Para dirigentes da Liga do Nordeste, o problema é o parâmetro usado pelos clubes para medir o que é justo ou não. Times da Série A, que recebem mais dinheiro, não veem a Copa do Nordeste (principalmente na primeira fase), como um grande atrativo. Já para os times que estão na Série C, por exemplo, sem ajuda de custo da CBF ou dinheiro das emissoras, o campeonato é importante.   

“O dinheiro da Copa do Nordeste representa o dobro da cota que recebemos do [Campeonato] Pernambucano. Eu não posso ter o mesmo raciocínio dos clubes que estão na Série A. O meu time está na C. São mundos diferentes”, afirma o presidente do Santa Cruz, Constantino Júnior.  

Equipes que estão no grupo 3 (Fortaleza, Botafogo-PB, Salgueiro e Confiança) e 4 se queixam que a decisão das cotas foi resultado de negociações de bastidores lideradas por Bahia e Vitória. Os demais teriam sido excluídos ou não tiveram muito tempo para debater.  

A Liga do Nordeste afirma que a forma de divisão do valor arrecadado foi colocada em votação pelos clubes e que prevaleceu vontade da maioria: a divisão em quatro grupos de valores distintos.  Em reunião realizada em São Paulo com executivos do SBT, no mês passado, cartolas do Bahia reclamaram dos valores pagos e ameaçaram não participar do torneio.  

A desistência complicaria a fórmula de disputa, que se apoia em clássicos regionais para tornar a primeira fase mais atrativa. Bahia e Vitória, Santa Cruz e Náutico, Fortaleza e Ceará, por exemplo, foram colocados em chaves separadas de forma proposital. Assim terão de jogar uns contra os outros.

Bahia e Vitória querem incluir a Copa do Nordeste em seus pacotes de pay-per-view, processo que a Liga do Nordeste vê como natural, mas apenas para o futuro. A ideia por trás da iniciativa é atrair os nordestinos que moram em outras regiões do país.  

Isso, porém, exige uma negociação com a Globo, que não se interessou em transmitir o torneio de 2018 e viu os direitos em TV aberta serem comprados pelo SBT por cerca de R$ 5 milhões. A rede também mostrará partidas em 2019, mas apenas nas afiliadas do Nordeste.  

“Se você considerar o número de nordestinos que vivem em São Paulo, por exemplo, seria muito bom se o SBT transmitisse pelo menos os principais jogos para o país inteiro. Valorizaria a competição”, opina Edno Melo, presidente do Náutico. 

O SBT não considera essa possibilidade para a primeira fase. Admite analisá-la para os dois jogos finais. O canal, porém, havia dito a mesma coisa sobre a transmissão das finais deste ano, mas a ideia não vingou. Os jogos também serão mostrados ao vivo pelo Esporte Interativo em sua página no Facebook.  

A estimativa é que o campeão pode receber mais R$ 4 milhões de premiações a partir das quartas de final, além da cota de participação.  Se um clube do grupo 1 ganhar o torneio, por exemplo, receberá no total cerca de R$ 5,9 milhões. Se o troféu ficar com uma das equipes do grupo 4, seriam R$ 4,5 milhões de prêmio. 

Os gastos com viagem, hospedagem e traslados são pagos pela Liga, não pelas agremiações.  “É uma competição que no futuro vai render muito mais aos clubes e que já é lucrativa para a maioria. Há times envolvidos que pagam a folha de um semestre com a cota da Copa do Nordeste. Mas hoje em dia existem alguns times que querem um dinheiro que não existe. O torneio tem enorme potencial e desperta grande atenção. Não acredito que ninguém vá jogar com time reserva ou sub-20”, afirma Alexi Portela, presidente da Liga do Nordeste. 

A Copa do Nordeste ainda não tem calendário definido, mas será disputada no primeiro semestre de 2019.

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